Spotify, Apple Music, Deezer... - A revolução do streaming chegou para ficar, mas quem ela mais beneficia?
São diversos atores e interesses emaranhados nessa equação: Gravadoras e grupos detentores de direitos, distribuidoras digitais, artistas e bandas, as próprias empresas de streaming e por aí vai. Mas vamos começar pelo básico:
Por stream, ou tocada, um artista ganha no spotify 0,004 centavo de dólar. Em reais, para um artista ganhar um salário mínimo em 2023 (R$1320), são necessários cerca de 70.000 streams mensais no spotify (que é diferente da estatística que o spotify mostra de ‘ouvintes mensais’). E isso sem contar com a porcentagem que a distribuidora pega, que geralmente gira em torno de 15% - fazendo o número de streams necessários para um salário mínimo subir para cerca de 100.000 streams mensais.
Isso é o que Kevin Parker, a mente por trás do projeto Tame Impala, tem a dizer sobre piratearem a sua música:
Quer ouvir uma história? Há pouco tempo, de todas as vendas de discos dos Tame Impala fora da Austrália eu tinha recebido.... zero dólares. Alguém do topo gastou o dinheiro antes de ele chegar a mim. Talvez eu nunca receba esse dinheiro. Depois, a Blackberry e uma marca de tequila ou algo do género puseram a minha canção num anúncio. [Depois] comprei uma casa e montei um estúdio.
A indústria do streaming inovou em acessibilidade quando qualquer um consegue lançar uma música do seu quarto através de uma distribuidora digital que não cobra nada de início pra lançar suas músicas (apenas um royalty nas streams). Mas, parece mais que se cria uma nova classe de micro artistas.
Mais da métade de todas as músicas do spotify tem 500 streams e, no sexto ano do spotify, 20% das músicas do spotify tinham 0 plays. Desenvolve-se uma tendência de micro pagamentos e não-pagamentos à um número crescente de artistas que não conseguem ter nenhuma perspectiva de estabilidade ou carreira. Seria uma continuação do padrão de uberização do trabalho?
Más notícias para pequenos artistas ou grupos, o payola (ou aqui chamado pelo jabá, aquele dinheirinho que gravadoras dão para colocar a música do seu artista no rádio), está sendo usado por grandes gravadoras para promoverem seus artistas nas playlists e todo tipo de vantagem algorítmica.
Stephen Cooper, o CEO do grupo gigante WARNER MUSIC GROUP, admitiu que gravadoras pagam para incluir artistas nas playlists de streaming:
“Playlist é uma das maiores razões para artistas precisarem de gravadores hoje em dia.”
E isso sem falar na nova ameaça tecnológica nova contra os pequenos artistas: bots!
No reino de streaming, os bots funcionam como falsos consumidores de música que são direcionados para aumentarem os streams de um determinado artista, fazendo com que ambos a sua renda de royalties e a sua visibilidade algorítmica cresçam artificialmente.
A empresa VICE fez uma reportagem sobre um artista que conseguiu jogar o jogo das grandes gravadoras e não só usou bots para se engrandecer artificialmente, mas também denunciou que a indústria e as gravadoras são tomadas por essa metodologia torta e que artistas grandes, como J. Cole, se beneficiam disso sem nem saber.
“No mundo de hoje, todo mundo está usando um streaming phone. São diversos celulares programados para tocar a sua música no spotify sem parar, você ganha streams, você ganha dinheiro. Usando essas plataformas eu pude fazer [muito dinheiro] e pude entrar nas listas da BillBoard, nas listas principais do spotify, apple music, tidal, etc”
- Chad Focus, VICE interview 2023
“Bots são programados para salvar músicas, colocar músicas em playlists e escutar músicas para aumentar o número de streams, inflando a exposição e a popularidade percebida de uma banda ou artista. Não há leis claras que proibem certos elementos do ecossistema de bots, que tem elementos de um mercado negro”
-VICE TV: “Want to Be Famous? You Just Need a Spotify Bot”
A assimetria que os artistas pequenos sofrem soma-se com a infraestrutura de uma gravadora disponibilizada em formas de estúdios de gravação, estrutura para turnês ou até funcionários que auxiliem com composição e produção musical. Artistas muitas vezes são tentados a assinarem um contrato 360º, que mais ou menos significa que o artista terá infraestruturas de marketing, shows e até um avanço líquido de dinheiro, mas criará um débito com a gravadora, tendo de fazer o dinheiro render de volta o valor investido da gravadora – o que muitas vezes vira só um empréstimo ruim.
Portanto a conclusão mais realista é que o streaming, e a indústria da música como um todo nesse momento, não fazem caridade e não tem como missão principal ajudar os artistas ou os consumidores, mas sim criar novas possibilidades de lucro e mercado para suas empresas. Se for entrar nesse mundo, faça a devida investigação dos caminhos tracejados por artistas pequenos através de plataformas como Bandcamp e Patreon e mantenha-se informado pra não cair no bolo de artistas entusiasmados e talentosos que foram passados a perna quando não foram cautelosos.
Como a gente sabe disso? Dá uma olhada: